Crítica:
IMAGINEM QUANDO FOR CENTENÁRIO DO NELSON
Nelson Rodrigues é juntamente com Plínio Marcos o nosso melhor dramaturgo da segunda metade do século XX. Pelo menos é o que parece pela quantidade de encenações de suas peças. Mas esse ano, Nelson ganhou a taça aqui em São Paulo. Foi montado pelos Satyros (Vestido de Noiva) por Marco Antonio Braz (Sete Vezes Nelson) e outros. Fora as maravilhosas versões de “Senhora dos Afogados”, dirigidas por Zé Henrique de Paula - que já cumpriu temporada - e a imperdível de Antunes Filho, em cartaz no SESC Anchieta. Só que escritor e jornalista completaria apenas 96 anos. Já pensou o que vai acontecer em 2012? Além dos espetáculos já citados merece destaque “Toda Nudez Será Castigada” em cartaz nos sábados às 19hs e domingos às 18hs no Teatro Coletivo Fábrica, em frente ao cemitério da Consolação. A encenação vem de São José dos Campos e não deixa nada a desejar às paulistanas. Assinada por Cláudio Mendel, a montagem começa com Geni já falecida (Adriana Barja) lembrando de sua vida pregressa que acontece no palco diante dela e do público. A Geni da lembrança é interpretada com brilho por Andréia Barros. Aliás, todos os atores estão impecáveis. Há também dois Herculanos
(Wallace Puosso e André Ravasco) um fazendo o fantasma o outro enquanto vivo. Fiel ao texto, quem trama toda a situação é Patrício, a cargo de Vander Palma. Além deles há Gutto Moreira como Serginho (filho dos falecidos) e as três tias (Ana Cristina Freitas, Caren Ruaro e Milena Roberta). O espaço cênico é em forma de arena, delimitada por um único elemento cenográfico, um colchão redondo. Ao redor, ficam público, tias e mortos. Como ninguém sai de cena, a leitura fica extremamente leve e dinâmica. Uns em volta da arena, outros sobre o almofadão. Essa leveza advém inclusive do equilíbrio complexo no “praticável de espuma”, ainda mais que todos se apresentam descalços.
É claro que todo o teatro é um jogo, pois todo mundo que está presente sabe que é ficção, ou se quiserem mentirinha. Mas a excelente direção de Mendel torna o jogo ainda mais óbvio para a platéia. Enquanto os personagens mais centrais interpretam realisticamente, ou seja, a moda Stanislawsky, a movimentação e a presença dos fantasmas provocam distanciamento meio a Brecht, mostrando o jogo ainda que sem conotações políticas.
São qualidades que tornam o espetáculo muito original e imperdível.
Não deixe de ver.
Maria Lúcia Candeias
Doutora em teatro pela USP
Livre Docente pela Unicamp
informações sobre a peça click aqui.
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