CRÍTICA - por MARICI SALOMÃO

OBSESSÕES GRAVITANTES

 
Na última década e meia, a obra de Nelson Rodrigues voltou a ser montada por grupos e diretores importantes, e sob conceitos novos contrapostos ao realismo. Nessa vertente, o diretor Claudio Mendel criou sua versão de Toda Nudez Sera Castigada (1965), destituindo-a de qualquer elemento cenográfico que mediasse as relações entre os personagens. Opção oportuna: esse texto de Nelson, ainda que traga a luz o tema perene de sua obra - o da fatalidade do amor -, e uma das que mais fortemente fazem explodir as obsessões de suas personagens. Não foi por capricho que Nelson intitulou a peça como "obsessão em três atos". Para narrar o caso de amor entre Herculano e a prostituta Geni, e as consequências nefastas geradas no filho Serginho, o diretor trabalha em formato de arena, inserindo o público nos domínios da representação.
Como num átomo, em cujo centro estão os prótons e neutrons, os protagonistas Herculano e Geni interpretam sobre o que lembra uma "cama" redonda de espuma, parecendo irradiar, como ondas, seus desejos e ações aos outros personagens, que se encontram, como elétrons gravitantes, nos espaços da platéia. Ao abolir a cenografia, a montagem faz concentrar toda a carga dramática exclusivamente sobre as interpretações. Claro que a opção gera riscos: o elenco é seguro, bem-conduzido pela mão da direção, mas ainda revelou poucos destaques, levando-se em conta a apresentação que abriu o primeiro dia da Mostra Joseense de Teatro. Como Patrício, espécie de Iago em chave rodriguiana - sombra da maldade atuando contra Herculano, Serginho e Geni - a atuação vigorosa de Vander Palma chama a atenção. Nesse registro segue Gutto Moreira, no papel de Serginho.
Andréia Barros, como Geni e Wallace Puosso, como Herculano, atuam com força dramática, mas podem ainda encontrar nuances de interpretação, que surjam de um contato mais profundo com as intenções dos personagens. Em registro diferenciado, as três tias de Herculano repousam a atuação sobre a codificação dos movimentos.
O mesmo recurso e usado pela personagem Geni-morta, que pontua a cena com algum histrionismo corporal. Em ambos os casos, os registros poderiam ser suavizados, em troca de mais peso dramático as personagens.
Por fim, note-se que a iluminação assinada por Daniel Augusto e um dos pontos fortes da montagem, criando um jogo de bom-gosto ao dar a cena um esmaecimento visual, mas sem enfraquecer a luz da arena. O mesmo se pode dizer da sonoplastia (Claudio Mendel), que confere alta temperatura as atuações.
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