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O dramaturgo Luís Alberto de Abreu está com uma ambição sem tamanho, ou como ele diz, uma Utopia mesmo, a fundação de outra mitologia de base para uma nova dramaturgia. Está experimentando isso. E não por acaso achou em vocês o grupo perfeito, porque é uma gente corajosa, se lançando nessa aventura de quebrar expectativas, o que nunca é fácil. Além de experimentar reverter o mito do herói guerreiro para uma mitologia fundada na sensibilidade feminina e no lúdico infantil, ele também está "experimentando" ser Shakespeare. E com muito sucesso. Ocorre que a linguagem na ficção anda muito rasteira. O espectador está acostumado a um uso muito abastardado do idioma na televisão. Como dizia Jose Lewgoy, ator de TV pensa que tristeza é chorar, raiva é gritar e naturalidade é falar de boca cheia. E quando o Abeu coloca no palco aquela poesia dele, ele cria problema para os atores e para o público. Um bom problema como vocês mesmo disseram. E acho que vocês se saíram bastante bem do problema. Aqui e ali sinto que ainda faltou pegar essa poesia e encher a boca com ela, acreditar nela. Mas só aqui e ali, mesmo, de verdade.
Bem, depois vem a questão das heroínas propriamente dito. Há um desenho muito claro ali, em bom caipirês, algo como mingau quente a gente come pelas beiradas. A primeira mulher, da estação, não consegue virar o jogo, e nem o homem. Eles cumprem os rituais do herói guerreiro, todos eles, inclusive o pai - e é linda aquela inquietação dele sobre o diabo do costume que é mais forte do que o coração de pai. Depois vem a cabocla Tereza, que também não deixa de morrer, mas aparece altiva, consegue ganhar voz, contar sua história, mostrar o seu ponto de vista, e o homem deixa de ser o guerreiro para ser o penitente. E é só na última história que consegue fazer a sua individuação, ela foge do pai, foge do marido, assume a própria solidão, para só depois, ao ver a fragilidade de seu homem, ir com ele. E ele, esse homem, fica forte, faz sua conquista, não pela força, mas quando se fragiliza. É bonito esse desenho da dramaturgia e vocês conseguem passá-lo.
É uma peça de passagem nessa pesquisa. Afinal, para falar da mulher, Abreu precisou fazê-lo a partir do rompimento com um pensamento anterior, teve de falar de homem. Está certo, tem de ser assim nesse momento.
O que me incomoda então? Custei a descobrir. E é assim o que pensei: vocês trabalham o tempo todo com uma volta ao passado extremamente "positivada". Os sons da mata (o Beto Quadros é realmente um gênio, a ambientação sonora criada é maravilhosa), as brincadeiras infantis, tudo, tudo está muito bom e corresponde à proposta, e nos conduz mesmo de volta a um outro tempo, das lamparinas, das estradas de terra, dos silêncios, dos pios dos bichos noturnos. Mas essa proposta o tempo todo, ou predominantemente, faz uma volta sentimental, afetiva e, na falta de um termo melhor, positivada ao passado. Mas é no passado que vale a surra na filha, a morte da cabocla Tereza sem punição, o pai proprietário, o marido violento, o herói guerreiro. Então, não sei como, mas essa volta ao passado tinha que vir impregnada dessa ambiguidade. Deu para entender? Estou sendo muito chata? Eu cheguei a tocar nesse ponto lá no camarim, lembra? É só no presente, hoje, que vocês podem falar daquele passado. Isso é bacana na peça, tem esse aspecto presencial claro na forma narrativa, a gente sabe que vocês estão ali contando hoje, são atores, não se tenta iludir. Mas há nesse recurso de volta ao passado, nesse transporte, nessa condução que vocês propiciam, a qual vocês convidam, e fazem isso muito bem, uma certa linha única, eu diria, uma idealização do passado implícita.
Gostei muito mesmo do que o grupo fez. |